Design de uma abordagem de fichamento acadêmico #1
Um dos desafios para quem investe na carreira acadêmica é lidar com a alta carga de leituras de diversos tipos: desde artigos, até livros, passando por teses e dissertações. Essa atividade é constante, dado que o pesquisador deve estar sempre atento ao que a sua área está publicando recentemente.
Porém, não basta simplesmente ler altas quantidades de materiais, pois é preciso organizar todo esse material de modo a facilitar seu acesso, para a utilização em futuros trabalhos. Isso porque é muito fácil que ideias de um trabalho sejam esquecidas ou confundidas com ideias de outros materiais, tornando inviável (para pessoas normais) reter as informações de modo a recuperá-las facilmente.
Existem diversas técnicas para operacionalizar esse processo. Todas buscam uma sistematização das leituras, organizando-as a partir de uma abordagem de leitura ativa. Ou seja, há um processo criativo de amplificação do domínio sob o tema, através da leitura atenta e da seleção e comentários sobre o material consultado. Isso visa favorecer níveis mais complexos de aprendizagem da taxonomia de Bloom, modelo de classificação dos diferentes níveis de aprendizagem.
Quanto mais alto na pirâmide, maior o grau de apropriação do sujeito. Assim, para o leitor acadêmico não basta simplesmente lembrar e compreender, mas se preparar para subir a pirâmide. E nada melhor que isso, se seu processo já estiver assentado sobre uma abordagem criadora.
Ao longo de minha trajetória tive contato com algumas abordagens, porém as que me foram apresentadas como as ideais não corresponderam às minhas necessidades. Dessa forma, passei a buscar aprimorar minha abordagem de organização das leituras, num autêntico processo de design (ainda que informal): análise da situação, design, teste, avaliação e redesign. Isso possibilitou um ciclo de refinamento que ainda não se encerrou. A partir disso, passarei a apresentar aqui como se deu esse processo, indicando as ferramentas e justificando as abordagens.
Inicio apresentando a abordagem mais comum entre os acadêmicos, o fichamento.
O fichamento é um registro organizado de leitura de uma obra. Serve justamente para a preservação de ideias, por meio da criação de fichas. Estas podem ser acessadas e consultadas de forma mais fácil, o que possibilita seu emprego nas escritas futuras.
Existem três tipos principais de fichamento:
Bibliográfico: dados da obra e breve descrição.
De resumo: síntese das ideias do autor.
De citação: transcrição literal de passagens importantes.
Esses tipos podem ser aplicados de forma isolada. Contudo, normalmente são aplicados em abordagens mistas. Isso acaba produzindo efeitos mais ricos para a construção das fichas de leitura.
Para exemplificar um formato misto, poderíamos estruturar uma ficha do seguinte modo:
Referência bibliográfica
Tema ou objetivo do material: um breve parágrafo sintetizando a ideia central.
Ideias principais de cada capítulo: comentários autorais a partir da leitura, descrevendo o movimento argumentativo de cada capítulo; ou citações diretas comentadas.
Comentários pessoais sobre o texto
Existem diversas variações desse formato, dependendo do recorte do material e do estilo do pesquisador: fichamento de um capítulo, ou de um livro inteiro; preferência por citações diretas, ou por citações indiretas; abordagens mais ou menos autorais etc.
Uma limitação que percebo em muitas abordagens tradicionais de fichamento está relacionada ao modo como a tecnologia é empregada pelo leitor. Normalmente se utiliza da escrita manual ou pelo computador. No entanto, isso impõe a dificuldade de se dispor de um ambiente adequado para essa leitura, além do incremento do tempo em função da transformação das ideias em função da escrita, que tem um ritmo mais lento. Além disso, também há a questão de localizar as informações descritas em uma grande quantidade de fichamentos (sejam folhas escritas ou documentos digitais), uma vez que à medida que a quantidade de fichamentos cresce, localizar informações específicas pode se tornar uma tarefa trabalhosa, especialmente quando não há mecanismos eficientes de indexação e busca.
Por conta disso, nunca consegui me adaptar a esse formato de fichamento, por nem sempre ler de frente a uma mesa, ou por sentir que não me lembraria como me localizar nos materiais nessa abordagem. Sendo assim, procurei aprimorar esse modelo, adaptando-o ao meu estilo e às minhas abordagens.
Na próxima publicação apresentarei a primeira versão de meu próprio modelo de fichamento digital.
Até lá!

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